quinta-feira, 23 de junho de 2011

Queridos,

Hoje vou homenagear uma pessoa muito amável que partiu nesta semana.
Beijos,


A CASA DE TIA SUELI

Hoje teclei com minha mãe e soube que ela estava triste, pois havia falecido a sua tia Sueli.
Era a penúltima irmã viva de minha avó, a qual já deixou este plano há muito tempo, quando eu ainda estava em formação, no ventre materno.
No início de 2008 após eu ter superado uma convalescença, com a ajuda da família e de amigos, minha progenitora  fez questão de levar-me a conhecer sua tia, que morava na serra. Ela acreditava que seria útil para o meu crescimento ver um estilo de vida diferente, por assim dizer. E estava certa.
Aliás, minha mãe nunca desperdiçava uma oportunidade de ensinar algo a alguém, a ponto de certas vezes ser inconveniente. No entanto, se fizermos um balanço de quantas sementes ela semeou e brotaram e o número de sementes ditas inconvenientes, eu diria que mesmo as inconvenientes podem estar em estado de latência na memória dos ouvintes e, quiçá, virão a brotar na hora certa. Porém, sobre minha mãe teclarei em outra ocasião.
Voltamos à tia Sueli. Lá estávamos pai, mãe e eu procurando a casa entre ruas tão parecidas, com casas que pareciam da minha infância. Sabe casa no formato de casa? Você faz um cubo e coloca uma pirâmide em cima. Todas as casas eram assim até que desceu uma nave espacial cheia de arquitetos e virou esta desordem de formas e profundidades, um horror para os obsessivos-compulsivos.
Finalmente mamãe viu algo familiar e num pulo disse: “-  É aquela!”.
Era uma humilde casinha, hoje seria chamada de kitinete, de madeira, sem pintura. A madeira seca, com ranhuras esculpidas pelo tempo. Ao pé da casa, em todo o seu entorno havia plantas de jardim ou ervas medicinais diversas. Bem cuidadas, só quem conhece pode perceber. Não imagine esses jardins de condomínio projetados por paisagistas, com as plantas dispostas de forma geométrica. Imagine um jardim com flores espalhadas intuitivamente, por alguém que plantou cantando.
 Observávamos a moradia absortos, quando acorreu uma senhora rapidamente, mais solícita do que estamos acostumados a ver no isolamento urbano da capital. Era a vizinha, que prontamente abriu a porta, nos colocou para dentro e correu a procurar a tia, que então descobrimos havia ido ao toalete, localizado no exterior da residência.
Tia Sueli, uma senhora de oitenta e tantos anos tinha mais disposição que eu, e talvez mais saúde também. Uma pele de seda. Sua pior doença era a preocupação com os filhos e netos. Foi muito querida e simpática. Impressionou-me o fato de que ao me olhar reconheceu traços de minha avó, que era sua irmã. Impressionou porque imaginei que sua vista já fosse fraca. Como é difícil largar o vício do pré-julgamento, não é? Acredito que este comportamento é um mecanismo da mente para escanear uma situação. Como um robocop mesmo! Você chega, percebe tudo à sua volta e tira suas conclusões baseado nas experiências vividas. Então decide: fugir ou atacar! Mas estamos evoluindo. Ufa!

Enquanto minha mãe fazia indagações à tia, sabiamente motivando a velhinha a falar um pouco, meu pai sentou-se ao lado do fogão à lenha e eu, como de costume, observei cada detalhe, extasiada ao ver em 3D imagens que só havia lido em livros ou visto em filmes.
Vou descrever em detalhes o interior da humilde morada que era tão aconchegante quanto minúscula.
Tratava-se de duas peças que consistiam de um quarto e uma cozinha-sala.
O quarto era do tamanho de uma cama de casal, só que com uma faixa de espaço ao lado da cama para passagem. A cama com colchão de palha era tudo o que havia no quarto.
Na outra peça havia um banco e duas cadeiras, uma mesa com roupas empilhadas, um fogão à lenha. Não tinha geladeira nem fogão à gás.  Uma estante ou prateleira com algumas peças de louça. Não tinha sofá. A casa não conhecia azulejo, na parede em torno da pia tinha um plástico preso por pregos, para que a água não danificasse a madeira da parede. O banheiro ficava fora da casa. Eu não fui averiguar mas me parece que era do tipo privada: uma casinha sobre um fosso. Não havia sequer um eletrodoméstico, micro-ondas, computador, televisor ou qualquer objeto provido de plugue nem de wireless.
Tia Sueli vivia lá. Sozinha. Não queria outro lugar no mundo. Aquele era o seu lugar.
Não que não sentisse necessidade de um pouco de conforto, mas não tinha condições de dar um upgrade na sua vida e não queria morar com filhos para não incomodar.
Agora sabe como ela obtinha lenha para acender o fogão e então cozinhar e se aquecer? Eu te digo: caminhava até a rua geral onde pegava um ônibus até um local em que um senhor vendia lenha. Com algumas “achas” de lenha que pudesse carregar ela tornava a subir no ônibus de volta para casa. Com aquela idade.
Não tinha carro. Não tinha telefone celular.
E assim viveu até os oitenta e tantos anos a minha tia-avó Sueli.
Que esteja em PAZ.

Um comentário:

  1. Mirinha, ficou muito bonita esta homenagem! Bom que voce escreve o que tem dentro do seu coração, e nestas palavras, vai soltando um pouquinho de voce em cada texto, até pra gente te conhecer melhor. Beijão e continua, tá?

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