Gatos
A vida de uma pessoa muda depois que ela passa a ter um gato, ou melhor, depois que ela passa a pertencer a um gato.
Muita gente desavisada pensa que o gato reage como um cachorro, obedece a comandos de voz, é um companheiro fiel e até abana a cauda. Qual o quê! Tudo isso depende muito da personalidade do bichano. Em minha casa tem três gatos e são diferentes. São adotados, como todos os que já tivemos à exceção do primeiro casal de siameses que foi comprado quando ainda desconhecíamos a realidade da superpopulação de animais domésticos, há vinte anos. Todos são vacinados, vemifugados e castrados, que é para não saírem por aí praticando a lei do “Crescei e multiplicai-vos.”, que já está pra lá de revogada.
Pois bem, a Sophie é uma gatinha Sem Raça Definida (SRD) com fortes nuances de Siamês que herdou da mãe, com certeza. Foi trazida por meu esposo de um terreno baldio próximo ao seu trabalho. O pai, desconhecido, se arrancou e a esta altura já deve ter “zilhares” de herdeiros a requerer pensão. Ou, quem sabe, num futuro remoto levar nas costas um processo por Abandono Emocional. Bem, foi só uma piada. Deixemos de julgar o animal, que só fez seguir seus instintos.
Voltando à Sophie, ela é uma gata fina. Como os siameses. Seu porte é elegante, sua postura sempre impecável, como se cada movimento dos músculos fosse milimétricamente pensado antes da execução. É bonito vê-la andando. Quando eu chacoalho o pacote de ração, música para os ouvidos felinos, enquanto os demais vêm a galope, a Sophie não. Ela vem passo a passo, como se soubesse que a comida não vai acabar, que sua porção estará lá esperando por ela no momento em que chegar ao pote. È uma “lady”, uma “lady Di”. Ao observá-la, lembro que preciso ter mais finesse. Mas não pense que por esses modos delicados ela seja frágil. Ao contrário: caça como ninguém, é certeira no bote ao pegar um camundongo ou uma barata ou seja lá o que for. Posso assistir a uma cena selvagem ao vivo dentro da minha sala ou cozinha, apenas em menores proporções. Parece um puma quando se prepara para atacar, espreitando a presa que, quando se percebe encurralada já é tarde. Não vi até hoje um destes alvos escaparem com vida, a menos que o felino tenha cansado de brincar. Apesar deste furor, há momentos em que a Sophie vem de mansinho. Só quando eu já encerrei meus afazeres e me sento em frente ao computador para me distrair um pouquinho. Ela começa a andar em volta, sobe na estante, vem para a escrivaninha, passa por trás do monitor...parece que vem em espiral, diminuindo o raio a cada volta. Por fim, já que eu não parei, ela finalmente sobe no teclado e deita. Vence o round por ipon. Pego a Sophie, largo tudo e vou dar-lhe a merecida atenção.
Outros dias sento na cama para assistir televisão . Então ela sabe que minhas vibrações já baixaram, estou calma e feliz, com a sensação do dever quase cumprido. Aí ela vem vindo devagarinho e me mostra a nuca. Eu entendo e acaricio, aí ela ergue bem a cabeça, expondo seu pescoço para eu acariciar também. Veja a confiança de um animal expor assim sua jugular. Por fim ela deita de barriga para cima e eu faço aquela massagem geral, barriga, laterais, costinhas. Ah! Como é bom ter uma amiga gata! Como é bom ter a Sophie ao meu lado.
A segunda, por ordem de chegada, é a Marrie. Gente, ela é um pompom todo branquinho! Meu filho adora andar pela casa usando a Marrie como pellerin, e ela não reclama, não se mexe, fica no pescoço dele bem feliz!
A Marrie também é uma gata SRD, adotada em uma feira de filhotes pela minha filha. Foi emocionante o dia em que fomos apenas eu e ela na tal feira à procura de um gato. Queríamos um macho siamês, para combinar com a Sophie, e não tinha. Mas tinha a Marrie e nos apaixonamos as três. Ela se destacava dos demais por sua beleza, sua carinha de anjo. Todos eram lindinhos, mas ela foi irresistível. Pois bem, minha mocinha pegou a gata no colo para fazer um test drive e não largou mais. Olhamos vários animais na feira, e ela continuava com a Marrie, que ainda não era Marrie, no colo. Resultado: preenchi um Termo de Adoção e, assim que assinei a voluntária pegou a todas: eu, mina filha e a gata e levou para o centro do barracão, ao lado de um sino pequeno, dourado, daqueles de mosteiro e disse: “Toque o sino!”. Então comecei a tocar o sino e todos em volta pararam e começaram a aplaudir. Até o pessoal da barraca promocional de ração! Eu e minha filha choramos e nos abraçamos, foi muito emocionante, porque aquele gesto representava mais uma vida animal que havia sido salva. Agora mesmo ao contar esta história me emocionei muito. Nunca mais vou esquecer (principalmente agora que o texto está a salvo! Hahaha).
Sobre a personalidade da Marrie, eu diria que ela é...digamos... “atacada”. Não pára nunca quando está acordada. Escala a cortina, observa tudo de cima do guarda-roupas, desce, corre pela casa de um lado a outro, corre para o quintal, sobe no caquizeiro que deve ter uns três metros. Ela vai ao galho mais alto e agora no outono que as folhas caíram só se vê galhos e a Marrie. Ela chega bem no alto, observa seus domínios e mia “- Aimi de quin ofi de uôrdi!” De repente ela vê que estou observando, fica sem graça, muda de posição, e fica me olhando nos olhos e miando. Se fazendo de frágil. Como se eu fosse sair do meu quarto e subir na árvore para salvá-la. Como se ela precisasse ser salva! Ah, doce Marrie! Se faz de frágil para ganhar carinho...
Quando ela finalmente consegue gastar quase toda a energia que pulsa em suas veias, procura um membro da família para se chegar, pedindo, ronronando, manhosa. E quem de nós resiste? A Marrie me faz lembrar a vivacidade e energia da infância, quando enfrentamos os medos para chegar ao galho mais alto e colher aquela goiaba mais saborosa! E me faz lembrar que as crianças mesmo que caiam levantam novamente, e nem por isso deixam de subir na árvore.
Finalmente mas não por fim, nosso terceiro companheiro de jornada: o Nanis. Não me peça explicações sobre o nome, pois este já veio batizado. É um SRD preto e branco, com pelo semilongo muito sedoso. Minha filha trouxe-o já adulto porém após algumas semanas todos estávamos adaptados, os humanos e os animais. No início tem que fazer malabarismo para que o gato não coma os peixes do aquário e sobretudo que o akita não queira treinar caçada com o gato. Ufa! Logo todos entendem que somos uma família porque passo noites explicando para eles sobre a Teoria da Evolução de Darwin, Teoria de Alan Kardec, Movimento pela Equidade de Gêneros e pela Aceitação da Diversidade. Por fim, o que funciona mesmo é quando eu grito: “- Sem PAZ, sem RAÇÃO!”. Então todos vivem felizes para sempre, ou quase.
O Nanis teve uma pata traseira amputada. “-Tadinho!” Foi o que você pensou, não é? Mas não pense assim. Isso é discriminação. Ele anda, corre, sobe em móveis, come, faz suas necessidades e se limpa sozinho. Claro que não pode competir com um gato quadrúpede, e é mais difícil para ele correr do akita. Se ele for para a rua temo que seja atropelado mais facilmente que os outros. Por isso requer um pouco mais de cuidado.
O traço mais marcante de sua personalidade: é carinhoso. É muito carinhoso. É um exagero de carinhoso! Ou talvez seja carência. Imagine um filhotinho ter uma perninha amputada. Primeiro teve uma inflamação que evoluiu para uma infecção que, mesmo com tratamento, culminou com a amputação do membro. Pomadas, remédios goela abaixo, injeções, centro cirúrgico, anestesia, mais pomadas, mais injetáveis, mais goela abaixo e finalmente, ao conseguir andar constatar que falta uma perna, que você vai pisar não sente o chão, desequilibra, cai, até a adaptação. Será que isso é traumático?
O resultado é que quando a minha filha não está em casa, o Nanis me vê e sai ao meu encalço. Faço as atividades domésticas nos diversos cômodos e quem está lá? O Nanis. Não incomoda, só quer sentir-se perto de alguém, quer calor humano.
Brinco que ele é um gato plug in play: quando eu entro em casa ele se aproxima e mia, e segue me seguindo (trocadilho proposital). Se enrosca em meus tornozelos, mia, me segue, faz a janta comigo, se enrosca novamente, tenta me puxar com suas patinhas em minhas pernas, e eu sigo fazendo minhas coisas. Não podendo parar, apenas converso com ele, que responde com miados. Na lavanderia ele deita num pano qualquer que vê no chão, esperando pacientemente pela sua vez. Checo sua vasilha de água, de comida, enfim, faço mil pequenas coisinhas como todo mundo faz entre a hora que chega em casa e a hora em que vai deitar. Converso com meu marido, compartiho arquivos com meus fihos, se é que me entende: teclo com milha filha que mora fora sobre como foi seu dia, se está bem, se está feliz, qual é o plano para amanhã e para o fim de semana e por aí vai. Depois da conversa e do banho vem a hora de jogar o cobertor sobre o filho e dar o beijo de boa noite. Isso pode ser matéria para outra “teclagem”. O importante para nós neste momento é saber que o Nanis continua de prontidão, reinvidicando seu quinhão de carinho, de atenção. Não me julgue uma megera, neste meio tempo desde minha chegada em casa já fiz uns cafunés nele e conversei bastante. Não, ele não foi ignorado. Mas ele quer colo ou uma boa esfregadela na barriga, e é o que ele finalmente obtém, não tanto quanto gostaria, mas é o que posso oferecer. Então ele sorri feliz e vai dormir com cara de réu, porque queria mesmo era dormir na cama queen que era o que ele merecia e não num tapete no chão.
“Sinto muito, Nanis, poderia ser pior, você poderia ainda ser uma formiga e dormir embaixo da terra. Já pensou?". Com esse argumento, agora sim ele vai feliz para o tapete, dormir sobre todas as formigas!
O Nanis nos ensina a sermos persistentes naquilo que queremos, a não desistir de um sonho apesar das adversidades que sabemos existir e daquelas inesperadas porque, mais cedo ou mais tarde a recompensa vem e então podemos dormir felizes...sobre todas as formigas.
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P.S. A analogia que fiz sobre as formigas não é de forma alguma pejorativa. Respeito muito as formigas por seu trabalho e organização coletiva e também individualmente, por carregarem mais que seu peso em folhas de árvores nas costas.



Hehe, cada dia melhor, nega! Gostaria muito que voce postasse fotos dos gatinhos... É possível?
ResponderExcluirBeijocas.
Boa ideia: incrementar os posts com fotos!!!
ResponderExcluirEstá faltando uma atualizaçãozinha por aqui....rsrsrsrrs Beijos.
ResponderExcluirteste
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